


O Paço Real de Évora, designado nas crónicas e documentos oficiais, antigos, de S. Francisco, por estar compreendido nos terrenos e em grande parte do primitivo convento dos padres regulares desta Ordem, teve seus princípios em tempo do rei D. Afonso V c.ª de 1470.
Ocupando, inicialmente, a Sala dos Estudos, onde a tradição afirma que el-rei havia fundado a primeira Livraria da Corte, ainda em sua vida absorveu outras partes do mosteiro, incluindo certa zona da cerca, a qual era vastíssima, pois se estendia das Portas do Rossio à do Raimundo. D. João II, que pousou nos Estáus da Praça Grande, no Castelo, no solar da Torre das Cinco Quinas e no Convento do Espinheiro, deu incremento ao edifício realengo e construiu na horta o célebre pavilhão de madeira, em 1490, que decorou ricamente e onde se efectuaram os desposórios dos príncipes D. Afonso de Portugal e D. Isabel de Castela, aquela tão afamada boda que causou sucesso na Europa pela enormidade dos seus banquetes, torneios e festejos públicos, como diz Garcia de Resende na Crónica de D. João II, caps. CXVI e sgs.
A mencionada ampliação, que abrangeu o levantamento das tercenas reais, foi determinada em conselho conventual, a instâncias de D. João II, e teve efeito em 2 de Novembro de 1493, sob presidência do guardião da comunidade, fr. Martinho, guardando el-rei, em compromisso corroborado pela chancelaria e confirmado pela Bula papal Ex-Comisso, de Alexandre VI, dada em Roma em 14 de Abril de 1495, a obrigação solene de reedificar e engrandecer a casa religiosa, que guardava, no futuro, para seu real padroado. Infelizmente, ao que se sabe, toda essa imensa obra de pedraria da época gótica e manuelina, onde era ornamento insubstituível a Sala das Embaixadas e os Refeitórios, desapareceu amalgamada na absorção utilitária de oficinas monásticas e na demolição definitiva do edifício em 1892-95.
D. Manuel imprimiu à casa notória importância e originalidade e entregou aos arquitectos Marfim Lourenço, Diogo de Arruda e ao castelhano Pero de Trilho sucessivas empreitadas, que vão de 1507 a 1520 e se estenderam indistintamente pelo Convento, Capela Real e Paço de S. Francisco. Seu filho e herdeiro no trono, D. João III, aumentou a grande obra e concedeu-lhe uma dignidade jamais atingida através dos séculos, habitando na casa anos seguidos e conservando-a com esmero tanto no domínio arquitectónico, entregue aos cuidados dos padeiros g mestres de pedraria da Comarca, Francisco de Arruda e Diogo de Torralva, como no sumptuário, pois o seu recheio mobiliário e jardins foram famosos em Portugal. De facto, a residência era considerada, outrora, como a mais notável e grandiosa do reino, depois do Paço da Ribeira, de Lisboa.
Na Sala da Rainha, do corpo gótico, se reuniram as cortes de Março de 1490, e nasceram vários dos filhos, mortos-nados, de D. Manuel e D. João III; no Verão de 1535, no edifício, se jurou herdeiro da coroa o jovem príncipe D. Manuel, durante as cortes nacionais para o efeito reunidas. Nas mesmas casas se deu, em 1497, a solene investidura de Vasco da Gama como comandante da frota de descobrimento do Caminho Marítimo para a índia, concedida pelo próprio monarca Venturoso: e nas décadas seguintes a corte assistiu a várias representações do imortal Gil Vicente, incluindo os Autos Pastoril Português, Auto de Mofina Mendes e a Floresta de Enganos, artista que a tradição local afirma ter-se finado nos paços de Évora cerca de 1536.
D. Sebastião e D. Henrique pouco residiram aqui: o primeiro por preferir a casa dos Capitães-mores, situada ao lado do seu querido Colégio da Companhia de Jesus, e o Cardeal-Infante porque habitava propriamente adentro dos muros do mesmo estabelecimento cultural, onde havia fundado a Universidade do Espírito Santo em 1559.
Servindo, de longe a longe, a pousada de príncipes, embaixadores ou religiosos do favor régio (D. António, Prior do Crato, recebeu nele lições do douto dominicano fr. Bartolomeu dos Mártires), a grande mansão alentejana, com o advento da dinastia filipina maior abandono sofreu, porque a permanência dos reis espanhóis na nossa terra, a partir de Filipe II, passou a fazer-se a longo prazo, originando uma oportuna petição da comunidade franciscana a seu favor, durante a visita a Évora, de Filipe III, em Maio de 1619. Satisfeito o pedido, segundo diploma régio de 28 de Setembro do mesmo ano e confirmado em capítulo presidido pelo provincial fr. António da Trindade, a entrega de boa parte do corpo palaciano verificou-se na presença do Provedor da Comarca, Dr. Paulo Gomes da Fonseca e Gaspar Velho, almoxarife dos paços, compreendendo a Sala da Rainha e duas câmaras contíguas ao dormitório fradesco, destinadas estas a Enfermarias monásticas.
Na mesma dotação se encorporavam os jardins e laranjal. Especificava o Alvará, todavia, que em tempo algum se poderia modificar a traça monumental dos imóveis ou construir obra de alvenaria nos espaços destinados a recreio, porque, diz o documento, quando aquele monarca ou quaisquer dos seus sucessores desejassem reedificar os paços para seu aposento, a comunidade seria constrangida a restituir, pura e simplesmente, as mercês neste diploma outorgados.
Data deste período a integração do maior e mais belo conjunto gótico-manuelino do Paço Real de Évora na amálgama conventual e, desta forma, veio a sofrer as vicissitudes impostas ao edifício quando da sua extinção em 1834. Assim, segundo o Dec. Lei de 25 de Julho de 1845, a Câmara Municipal obteve do Governo certas partes do edifício, o refeitório manuelino e anexos para neles instalar o Tribunal e a Junta de Freguesia de S. Pedro: quatro anos após, vasta zona palaciega, o belo claustro quinhentista, os Gerais e o Noviciado vieram a terra para darem lugar ao novel Mercado Público da cidade. No ano de 1873 outro crime irreparável se cometeu - a destruição integral da típica torrinha do Aqueduto da Água da Prata, desenhada pelo arquitecto Francisco de Arruda - sobranceira ao pórtico da Igreja de S. Francisco, obra da maior curiosidade de arquitectura do estilo da Renascença.
Finalmente, o Dec. Lei de 19 de Abril de 1892, assinado pelo rei D. Luís, autorizou a Câmara a vender os restos do Paço e Convento, onde estava encorporada a famosa Sala da Rainha e grande parte dos claustro gótico de 1376.
wikfsdfdsnfsdnn